Viagem Virtual
pela
Poesia da África Lusófona

Por

Katharina Aulls

Estudante do Mineur en Langue Portugaise et Cultures Lusophones

O encontro com as literaturas dos países lusófonos foi uma oportunidade, para mim de provar e saborear a riqueza das culturas lusófonas. Literaturas escritas na mesma língua, mas de cores variadas, consoante o país, a sua cultura e as suas tradições, desenham-se no horizonte literário um arco-íris na língua da Lusofonia: o Português.

As antigas colónias portuguesas de África e da Ásia que alcançaram a liberdade há mais ou menos 25 anos provocaram a emergência de escritores e poetas de expressão portuguesa, autores de todos os países lusófonos que publicam obras na língua de Saramago, Jorge Amado, Pepetela, Mia Couto, Craveirinha, Eugénia Neto.

. Estes autores são representantes da cultura específica do país que habitam e de onde escrevem. Alguns são autores de importância maior para as literaturas de expressão portuguesa: a lusografia.

Todos os autores que seleccionámos são escritores contemporâneos. Alda Espírito Santo (1926), é a primeira poetisa publicada de São Tomé, autora de uma poesia, que expressa o protesto e a luta, intimamente associados às aspirações do seu povo e à liberdade, é a escritora mais antiga. Germano Almeida (1945) advogado, jornalista e romancista premiado de Cabo Verde, desmascara a hipocrisia na sociedade cabo-verdiana com as armas do humor, que, pela lupa satírica, se transforma num paradigma de qualquer sociedade. Luís Cardoso (1955?) de Timor-Leste é considerado o primeiro romancista timorense. Abdulai Sila(1958) escreveu o primeiro romance guineense. O seu romance Eterna Paixão descreve a transformação pós-colonial da sociedade guineense. Pepetela (1941) angolano, fez uma opção política que viria a mudar o rumo da sua vida e a marcar toda a sua numerosa obra (uma dezena de romances), tornando-se no narrador por excelência da História de Angola. José Eduardo Agualusa (1960), angolano também, é o exemplo, por excelência, da escrita em crioulo português. O seu mais recente romance, Nação Crioula (1997), debruça-se sobre a história e a sociedade crioula e constitui uma afirmação de raízes que, contém em si, um projecto de futuro e de valores culturais angolanos e das culturas africanas. A sua escrita está tão enraizada na inovação semântica e estilística que as literaturas africanas têm imprimido à língua portuguesa. Mia Couto (1955), a voz mais destacada na literatura moçambicana, é o autor de língua portuguesa que maior novidade e frescura imprimiu à linguagem na última década. Mia Couto faz prova da sua capacidade imagética na recriação da semântica das palavras, através de um jogo neológico que irmana significados e dilata-os para criar uma atmosfera plena, de sonho e prenhe de possibilidades de leitura.

Depois desta panorâmica pelos autores que se expressam pela prosa, chegamos à poesia.
A poesia é caracterizada por ser uma expressão íntima e pessoal, escrita, no entanto, numa estrutura artística que estiliza as experiências pessoais, para as levar a um nível mais elevado e alcançar valores universais da humanidade. A experiência única torna-se numa verdade geral, numa metáfora de vida ou mesmo num mito.

Existe um Sítio de poemas na Rede, posto à nossa disposição pelo Senhor Joaquim Falé, que começou a mandar de Maputo em 1996 artigos e poemas de autores africanos para a lista pt-net@inesc.pt. Este apreciador de poesia e os seus amigos mandaram pelo menos duzentos e cinquenta poemas escolhidos por entre obras de poetas ou de colecções de poesia, muitas delas recentemente publicadas.
Embora os poemas sejam só uma selecção de poesia africana, o mandador Falé escolheu obras de uma grande variedade de poetas e de temas muito diversos. Esta colecção compreende cerca 100 poetas (mas somente 8 são femininos) dos países africanos, antigas colónias portuguesas. A maioria dos poetas desta colecção de poemas são angolanos (36) e moçambicanos (36). Bem representado está Cabo Verde com 18 poetas, Guiné-Bissau com 3, e São Tomé e Príncipe com 4. Incluídos estão também alguns poetas portugueses com ligações a África ou, aí radicados.

Viajando pela poesia da África lusófona, vêem-se os mesmos temas em cada país. Organizei os poemas segundo categorias de sete temas gerais, tais como:
1) Sofrimento
2) Esperança
3) Ser Africano
4) Vida Política (Patriotismo, Guerra Civil)
5) Família e Natureza
6) Amor e Saudade
7) Cultura (Lendas, Arte Poética, Filosofia)

É claro que muitos poemas tratam mais do que um tema. Combinam, por exemplo, o sofrimento com a esperança "num amanhã melhor", ou fazem interagir o amor da mulher negra com o seu amor por África.

Conclusão

Chegamos ao fim da nossa viagem pela poesia lusófona da África e perguntamo-nos em que medida esta poesia é uma contribuição para a definição da Lusofonia. A poesia africana enriquece a língua e a cultura portuguesas com o encanto de África: Por exemplo nas descrições de variadas manifestações culturais, de paisagens tropicais com animais como zebras, tigres, aves exóticas; com os retratos de vida familiar e da natureza que participa nesta vida e que é o lugar dos espíritos pagãos, com retratos dos poentes em cores sensuais e sedutoras, e sobretudo na interpretação de África enfeitiçada, do universo mágico da metáfora e do símbolo. A poesia africana enriquece a língua portuguesa com um vocabulário específico. Os poetas recriam e manifestam nesta língua os ritmos das danças africanas, como a batuque, a massemba, a rebita, e os requebros das mulheres negras. Os poetas encantam a língua portuguesa com o estilo e ritmos africanos e com nomes e palavras não-traduziveis e não-traduzidos.
Esta poesia de África, enquanto enriquecedora e participante na experiência da língua da lusofonia, não mostra nenhuns laços culturais com Portugal. Pelo contrário. A poesia africana cria uma cultura de identidade que é só africana. O paradoxo é que precisa da língua portuguesa, a língua do opressor, para se libertar desta influência e da identificação com ele.
A poesia de África manifesta a sua própria identidade na dignidade do seu sofrimento, e na sua paciência e perseverança.
Diz-se que os poetas compõem e tecem verdades de fibras de essência humana, além da história, além da vida diária. Ou, talvez, digamos (com João Maimona) que os poetas revelam e libertam estas verdades. A poesia medita sobre os valores humanos, a poesia é o sonho (Alda Espírito Santo) com a "mais bela de todos as lições - humanidade." A Lusofonia, na poesia de expressão portuguesa, participa e compartilha esse sonho.

Cem Fotos de África