O Jornal Vivo:
uma Estratégia de Comunicação
para o Ensino e Aprendizagem do Português, Língua Estrangeira


Por


Luís Aguilar

A educação, o ensino e o desenvolvimento pessoal
deveriam ser considerados como uma única realidade.

Georgi Lozanov

Fundamentos

Inspiramo-nos, por um lado, na ideia do jornal vivo de Moreno, que integrava o seu Teatro da Espontaneidade e na estratégia educativa o jornal escolar, concebida por Freinet, como técnica pedagógica, interdisciplinar. Consiste a nossa proposta na dramatização de notícias de jornal, spots publicitários, reportagens, etc., através de várias técnicas de Expressão Dramática. Trata-se com efeito, de passar à acção dramática, textos simples tirados da vida quotidiana das pessoas, da política, da arte, etc., ou da criação de reportagens imaginárias, legendas para fotografias, textos, etc.

Vamos descrever actividades-tipo, deste tipo de trabalho que integra o nosso modelo de comunic-acção de ensino e aprendizagem do Português, Língua Estrangeira, fundamentado no jogo de papéis, na sugestopedia e no modelo centrado na experiência.


Actividades

Ler títulos de jornais

O animador propõe várias actividades que têm a finalidade de introduzir e motivar os participantes no tema do Jornal Vivo.
Quando os participantes entram na sala de trabalho encontram distribuídas por todo o espaço folhas de jornal.
Percorrem toda a sala, sem tocar nas folhas, tentando ler à distância os títulos. Gradualmente vão resmungando em voz sussurrada os títulos que conseguem ler. A ideia consiste na produção de uma espécie de orquestração com as sonoridades das várias frases dos jornais. Depois, seguindo a mesma proposta, alternam a forma de ler as notícias: em voz alta, cantando, em pregão, gritando, sussurrando, etc.


Ler notícias de diferentes maneiras…

Continuando a movimentar-se por toda a sala, cada participante, pega numa das folhas de um jornal, lê frases soltas de várias notícias, nas formas mais diversificadas. Cada notícia é lida, como se fosse:

1. uma anedota engraçada.
2. o anúncio de uma tragédia.
3. uma declaração de amor.
4. a letra de uma canção.
5. lida por um gago.
6. um discurso político
7. um relato desportivo
8. cantada em ópera

Logo que o orientador, a sinal combinado, dá ordem de parar, todos os elementos se calam, à excepção de um que o orientador nomeia. Este contará a anedota engraçada ou fará o anúncio de uma tragédia, ou uma declaração de amor ou cantará uma canção, ou... ou.... e, a novo sinal, todos voltam ao mesmo tempo a ler a notícia de acordo com a proposta anterior. O silêncio e o som do invólucro das notícias.



A sonoridade das páginas dos jornais
Sem danificar as folhas de jornal expostas, uma vez que vão ser utilizadas em actividades posteriores, os vários participantes passeiam as folhas pela sala, procurando obter delas sonoridades diversifica das. Depois, tentam passear as folhas sem produzir o mínimo ruído.



Os Ardinas
Cada participante pega numa folha de jornal.
Distribuem-se pela sala, e tal como fazem os ardinas, vão anunciar as principais notícias das suas folhas, como se quisessem atrair clientes imaginários.
Metade dos elementos do grupo são ardinas que apregoam os principais eventos e os elementos da outra metade fazem de clientes, parando em frente de cada ardina para escutarem os vários pregões. Deslocam-se de ardina em ardina como entenderem. Invertem-se os papéis.



Criação e Dramatização de Notícias em Grupo

Os participantes são convidados a trabalhar em grupos de composição e número variados e que terão como tarefa a dramatização, a legendagem das imagens das notícias.


Notícias Vivas
Distribuídos por grupos de quatro ou cinco elementos, os participantes vão escolher uma notícia de jornal susceptível de ser dramatizada. Cada grupo terá então cerca de 15 minutos para, em conjunto, definir a forma como vai apresentar a notícia de maneira a que pareça estar a passar-se aqui e agora, ao vivo.
O animador ou um elemento do grupo lê uma notícia de jornal. Os participantes dramatizam a notícia lida.
Numa pequena retroacção pontual, analisa-se a forma dramática das várias versões da notícia apresentada.



Modificar Notícias

Os participantes distribuem-se por grupos de quatro/cinco elementos. Cada grupo tem uma notícia de jornal. Depois de analisá-la cada grupo vai imaginar um desfecho diferente para o evento narrado na notícia. Vinte minutos é o tempo máximo concedido a cada grupo para essa tarefa que inclui a definição da forma como vai ser apresentada aos outros grupos.



Legendar Notícias

A partir de uma imagem, de uma fotografia, de um quadro, etc., cada grupo de quatro/cinco participantes cria uma legenda que lhe corresponda.



A Imagem da Notícia

Cinco voluntários munidos de uma máquina fotográfica, no papel de repórteres fotográficos, vão ao exterior colher imagens instantâneas de motivos que pensem poder ser assunto de notícia.


A Notícia da Imagem
Distribuídos em grupos os participantes redigem, num primeiro momento, uma notícia que possa corresponder a cada uma das fotos instantâneas recolhidas. Num segundo momento, cada grupo dramatiza a notícia redigida podendo ampliar ou modificar o seu conteúdo de acordo com a forma escolhida para a apresentação aos outros grupos.

Os Canais de Televisão
Os participantes estão distribuídos por quatro/ cinco grupos. Cada grupo é formado por jornalistas de um canal de televisão, responsável pela emissão de programas. Sem grande preparação prévia, cada grupo decide que vai emitir um programa ou programas ou spot publicitário, ou desenho animado, etc. Os grupos são numerados de um a quatro ou cinco e logo que o animador mencione o número correspondente a um grupo (canal de televisão) este responde de imediato com uma improvisação significativa de um programa que nesse momento começa a ser transmitido.
Ao sinal de stop, o grupo que está a transmitir, suspende a emissão para dar lugar a um outro que o animador nomeia e que passará, de imediato, à acção. O animador chamará cada canal de televisão sem que tenha de seguir a ordem numérica estabelecida. Pode mesmo chamar duas vezes de seguida o mesmo canal. Cada programa é definido aqui e agora e não é apresentado na sua totalidade. Poder-se-á dizer que deve começar no meio e acabar no meio, uma vez que cada intervenção é permanentemente interrompida.



Palavras:
Da Memorização à Dramatização

 

 

 


Memorizar Palavras
A presente actividade desenvolve-se em três momentos distintos, e potencializa vários elementos transdisciplinares e/ou interdisciplinares, com especial incidência na aprendizagem da língua estrangeira. Cada momento da actividade, que a seguir se transcreve, deve ser realizado, um em cada sessão. O primeiro momento é, antes do mais, um exercício de memória e de concentração da atenção. Paralelamente, pretende-se realçar a importância do trabalho em grupo e as capacidades inesgotáveis do ser humano. O segundo momento corresponde à criação de um texto, para dramatização posterior. Num terceiro momento pretende-se, sobretudo, mobilizar as capacidades criativas e imaginativas dos participantes e realçar a importância da comunicação.Todos os elementos do grupo estão dispostos em círculo, em posição confortável.Um participante inicia uma frase: "Eu dou-te uma flor", por exemplo. O segundo elemento acrescenta algo à frase: "Eu dou-te uma flor e duas revoluções", para um terceiro participante continuar: "Eu dou-te uma flor, duas revoluções e três memórias". E assim por diante. Quer dizer, cada pessoa acrescenta um novo elemento, a que igualmente e para facilitar, se lhe associa o número seguinte. O participante que se enganar sai do jogo, terminando este, quando só existir uma pessoa. Verificar-se-á como em muito pouco tempo são ditas de cor várias dezenas de palavras que levariam horas a memorizar individualmente.

Produção escrita
Formam-se vários grupos de trabalho. Cada grupo vai criar um texto em que entrem todas as palavras anteriormente definidas. Utilizadas no singular ou no plural, todas devem constituir o pequeno texto a criar por cada grupo, que adoptará a metodologia que achar mais conveniente.
Em alternativa, pode pedir-se a cada participante que faça um pequeno texto que contenha todas as palavras decoradas. Só então se passará ao trabalho em grupo, que consistirá, neste caso, na selecção de três ou quatro textos susceptíveis de serem dramatizados. Pode-se, ainda nesta fase, modificar-se, agora em grupo, algumas partes do texto produzido individualmente.

Dramatização
Após a leitura dos vários textos, pede-se a cada grupo que passe à acção dramática aquilo que foi criado no papel. Se a tónica era antes colocada na palavra, neste terceiro momento os vários participantes concentrarão os seus esforços criativos no jogo dramático. Neste sentido não se torna necessária a utilização das palavras memorizadas. É no entanto natural que por força da sua inclusão no texto criado, a maior parte delas venha a ser integrada na dramatização.Finalmente, os vários grupos apresentam as suas produções, que serão motivo de análise tanto quanto ao conteúdo como à forma escolhida. Pode, eventualmente, após as análises realizadas, voltar a repetir-se cada dramatização, sobretudo se, neste caso, se colocar a tónica no desenvolvimento de capacidades de comunicação.


Na Agência de Viagens

O cenário que vamos descrever envolve 10 alunos que aprendem Português médio-avançado, um animador e um assistente e, pelo que foi dito até aqui, depressa se compreende que se trata de um cenário simultaneamente ideal e/ou paradigmático.
Pela abordagem do Jogo de Papéis o animador prepara, na sala, um cenário de uma Agência de Viagens, para a simulação hic et nunc de situações de aprendizagem.
Dois computadores, ligados à rede, várias cadeiras, onde se sentarão os "utentes", ao lado dos computadores, um aparelho de televisão, com leitor de vídeo incorporado. Nas paredes estão afixados vários cartazes evocativos da história, da geografia, da gastronomia, da literatura, dos vinhos portugueses, etc.
Ouve-se música portuguesa como pano de fundo que dá o ambiente musical. De posse do maior número de informações, o assistente, ou o próprio animador ou os dois, vão desempenhar o papel de Agentes de Viagem. Os alunos são convidados a fazer de conta que são potenciais utentes dos serviços da Agência e, por isso, querem recolher informações sobre os vários aspectos relacionados com uma imaginária viagem a Portugal. Na "agência" encontra-se, igualmente, uma estudante que já visitou Portugal com uma Bolsa de Estudos do Instituto Camões. A esta, o animador propõe que imagine que quer, de novo ir, a Portugal, mas agora, em viagem turística.
O animador e/ou o assistente, recorrendo aos seus motores de pesquisa pré-seleccionados, respondem às várias questões colocadas pelos "utentes" sobre as várias regiões do país que pretendem visitar. Recorrem, também aos vários Sítios seleccionados na Rede, para darem informações sobre questões diversas apresentadas pelos participantes. Que, na agência de viagens, partilham a informação que lhes foi fornecida.
O animador para desenvolver esta actividade tem, como se depreende, de fazer um volumoso trabalho de retaguarda que consiste, essencialmente, na pré-selecção de sítios na Rede, selecção de cartazes, fotografias, e variado material de apoio para tornar o mais aproximado da realidade a simulação, a partir da qual são inúmeras as tarefas a realizar:
1. Escolher, numa virtual viagem a Portugal, três motivos ou lugares de interesse.
2. Hierarquizar necessidades preparatórias à viagem, no que diz respeito, ao vocabulário, à cultura, ao turismo, à gastronomia, à história, etc.
3. Imaginar uma situação vivida na viagem virtual para, posteriormente, com a colaboração dos colegas, ser dramatizada numa futura sessão.
4. Interessar-se, verdadeiramente, pela viagem virtual e fazendo como se ela se realizasse para no prazo de 15 dias, cada participante apresenta o seu plano de viagens ao animador (professor) para novas orientações e planificações do ensino e da aprendizagem.
Como se deduz, as simulações e dramatizações constituem a motivação para a aplicação e partilha dos saberes aprofundando, ao mesmo tempo que as competências linguísticas, o conhecimento do património literário português, só possíveis, no entanto, com apurado e sistemática procura de informação que a Rede (Web) pode fornecer.
Em síntese, não sendo possível ter a realidade do país ali mesmo à frente inventa-se através da simulação que pode tornar as situações fictícias ou virtuais mais reais do que a realidade, quantas vezes vivida, como muitas vezes o sublinha Cardoso Pires, de forma cega, estilo postal ilustrado ou como conserva cultural. Ou como diria ainda Mia Couto "os factos só são verdadeiros depois de serem inventados".