Luso-Afonias e Cultura da Língua Portuguesa
por
Luís Aguilar

A Lusofonia insiste em fundamentar-se, sobretudo, numa comunidade linguística produzida pela História e, a título mais reduzido e embrionário, num espaço económico, numa organização política e numa vivência cultural. Naveguemos, então, pelo cabo das tormentas mas, possivelmente, também, pelo cabo da Boa Esperança do oceano Lusófono de onde emerge, de momento, a sombra do Adamastor.

Neste sintético texto abordaremos, o que, para nós, são as “probletemáticas” da Lusofonia, conceito difuso, escorregadio de múltiplas (in)definições e que carece, ainda, de uma conceptualização que, pelo menos, contorne as múltiplas ignorâncias e minimize os diversos silêncios e gritos vindos dos miradouros de onde ela se avista e se afoniza. De um desses miradouros, onde o Brasil se ausenta, se diz que a Lusofonia nasceu naturalmente, com o 25 de abril de 1974 e, oficialmente, em 1986 com a criação dos PALOP em 1979 e das CPLP, em 1996. Neste quadro, a Lusofonia é vista como uma tentativa de Portugal manter uma ligação estreita com as suas antigas colónias, um pouco como fez a França com a Francofonia e a Inglaterra (ainda mais eficazmente, com a Commonwealth). Em 1974 do Brasil, a viver em ditadura, chegava apenas uma carta musicada de Chico Buarque que punha metaforicamente o dedo, meigamente, na ferida: Tanto mar a nos separar. E tanta ambivalência histórica a empurrar o balouço entre a união e a desunião, oscilando entre o mítico Portugal das glórias passadas e o Brasil do mítico glorioso futuro que tarda em chegar desde 1822. Incapazes de viverem o presente é ainda no passado e no futuro que mergulham, um e outro, para, em vez de liderarem o movimento lusófono e as múltiplas partilhas que, a partir da língua comum se podem substantivar, envolvem-se numa estridente e estereofónica cacofonia, falando a duas vozes nos imensos e improdutivos (des)acordos ortográficos. Entretanto, os países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) ao agruparem-se deste modo absurdo, excluindo Portugal, Brasil e Timor mostram-se, simultaneamente, alheados da Lusofonia e a ela condenados, já que os Palops se fundamentam na língua comum que escolheram como oficial, embora, por exemplo, em Moçambique, apenas três por cento da população fale o Português como língua materna e sessenta por cento como língua segunda. Com efeito, a língua portuguesa como factor de unidade fundamental, a nível mundial, encontra tormentas várias: só em três países da CPLP(Portugal, Brasil e Angola) o Português é a língua materna, falada pela totalidade ou por uma maioria significativa da população, enquanto que nos outros países lusófonos, o Português é uma língua segunda e uma língua de ensino. Na Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor fala-se, principalmente, os crioulos portugueses, as línguas africanas ou asiáticas como línguas maternas.

Se perguntarmos hoje a um africano se o seu país, antiga colónia portuguesa é um país lusófono, recolhemos um Nim. É de recordar que um africano desenvolve uma cultura do sim e mesmo quando quer dizer não, responde do seguinte modo à pergunta, - Acha que a vida está a melhorar em Moçambique? – Está a melhorar sim. Mas a melhorar muito mal! Este exemplo que nos é trazido pelo escritor moçambicano, Mia Couto justifica, talvez, a forma como ele próprio responde à questão sobre se Moçambique é ou não um país lusófono: - É sim senhor! Mas sei que há outras lógicas que mandariam que eu dissesse: não, Moçambique não é um país lusófono. Nós diríamos que Moçambique pertence às Comunidade de Língua Oficial Portuguesa e à Commonwealth. Esquecendo-se que a própria acta da reunião dos nacionalistas moçambicanos que decidiram, em 1962, adoptar o Português como língua oficial, foi redigida em inglês, os linguistas brasileiros (menos) e os linguistas portugueses (mais) ficaram surpreendidos e escandalizados com a integração de Moçambique na Commonwealth e da Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe na Francofonia. Melhor fora que, de facto e ou de fato se escandalizassem com as suas inconsequentes e bisonhas guerras ortográficas e duras batalhas infrutíferas pela “hegeagonia” da língua comum, que fazem a gaguez e entristecem, milhões de falantes de Português, quando à escrita se dedicam. O sotaque do silêncio impõem-se nesta algazarra. Enquanto isto o português e o brasileiro da rua, brindam com copos “tilintantes” de Porto e cachaça, entendendo na “prefeitura” o que se querem dizer. - Falou, diz um. – Está dito, diz o outro, sem precisarem de mais nenhum acordo para pedirem mais um copo. Entre o fado e o samba há oceanos de entendimento que chegam bem para encher “milhacentos” garrafões de Lusofonia. Lisboa está actualmente grávida de brasileiros que escolheram a capital do Império para aí procurarem melhores condições de vida, deixando p’ra lá complexos coloniais. Mesmo que em Espanha tivessem melhores salários, a língua, a cultura e o coração falaram mais alto. Ainda há pouco tempo quando a vida em Portugal esteve preta (e vermelha) muitos portugueses elegeram o Brasil para viverem melhor e ainda hoje se avistam por todos os cantos do país-continente.

Em Angola, após quase trinta anos de independência, ficaram na memória imagens de milhares de angolanos a festejarem, em Luanda, a vitória do Sporting no campeonato português de futebol.
Entendemos a Lusofonia no quadro de uma Cultura da Língua Portuguesa nos termos em que propôs Agostinho da Silva, que longos anos viveu no Brasil, numa entrevista histórica - bastante vigiada pela polícia fascista portuguesa - que deu ao Programa Zip-Zip da RTP, em 25 de Agosto de 1969, numa altura em que Portugal detinha o poder colonial nos países hoje independentes: abrange naturalmente não só este território Português, mas também o Brasil, outros territórios pelo mundo e, provavelmente no futuro, porque há a possibilidade de expansão dessa cultura portuguesa, provavelmente outras nações terão todo o interesse em entrar connosco nalguma espécie de colaboração que terá por base, e por instrumento de trabalho, essa mesma Língua Portuguesa. Culturalmente, entendemos o espaço lusófono neste contexto de materialização da ideia do V Império (paradoxalmente anti-Império), tal como o definiu o Padre António Vieira, primeiro, e Fernando Pessoa, depois, conjugando o sonho utópico com um projecto de uma cultura da língua portuguesa. Sem dúvida um Projecto grandioso como algo que se pode sonhar. Um sonho ainda utópico que urge realizar, se para tanto houver engenho e arte. Há que dobrar o Cabo das Tormentas com que se confronta a Lusofonia neste momento, para que se transforme, como outrora, no Cabo da Boa Esperança.

O espaço lusófono abrange os cinco continentes e, por isso mesmo, está sujeito a uma grande diversidade linguística, racial, religiosa, etc. Uma língua comum é, assim, o primeiro passo para se poder sonhar e teorizar o universo lusófono.
Neste contexto pode definir-se a Lusofonia como uma comunidade histórica, cultural e linguística e, nesta perspectiva, poderemos nela integrar todas as comunidades que tiveram significativo contacto com a Língua de Camões, Machado de Assis, Pepetela, Mia Couto, Gabriel Mariano, Eugénia Neto e onde a História deixou traços da cultura portuguesa que se reflectem nas culturas nacionais ou regionais. Neste sentido, a Lusofonia não pode circunscrever-se às fronteiras nacionais dos países de língua oficial portuguesa. É imprescindível que abra as portas a outras comunidades espalhadas pelos vários cantos do mundo, onde o português é falado por uma parte significativa da população ou que com ele tenham tido, no passado, um contacto estreito, como por exemplo, algumas comunidades da Galiza e de Olivença que continuam a manter relações emocionais com Portugal e reclamando-se do Espaço Lusófono, pediram já a sua integração na CPLP. Pensamos, sobretudo, na grande diáspora lusófona, onde se inserem um terço dos portugueses que habita fora de Portugal (cerca de 5 milhões que vivem em França, na Alemanha, na África do Sul, no Canadá, na Austrália, nos Estados Unidos, etc.) e os brasileiros que andam também pelo mundo fora (só no Paraguai são cerca de 700.000). O espaço da Lusofonia integra, igualmente, as comunidades que se expressam em crioulos originários do português ou através de uma língua muito próxima: Macau, Aruba, Antilhas Neerlandesas, Ilhas Virgens e Porto Rico, Molucas , etc, regiões, onde o português desempenhou no passado um papel importante ainda que hoje seja pouco falado pelas povoações. Aí foram deixados importantes vestígios culturais, sem esquecer Goa, Damão, Macau, Diu, Malaca, Sri-Lanka( antigo Ceilão), etc.

Produto do Império Português, a Lusofonia é hoje um movimento pequeno, se comparado com a imensidão dos sonhos que lhe deram origem. Mas hoje há que entender a Lusofonia não como uma herança, como teimam os portugueses, nem como uma oportunidade de negócio futuro, como a vêem os brasileiros, nem um trauma neo-colonialista que dispensa os colonos, como a entendem os africanos e asiáticos. A Lusofonia é, para além de tudo isso, um desafio e um espaço de partilha de várias lusofonias.